Bia estava caminhando por uma estrada de terra molhada. estava descalça, com fome e distante 15 minutos de seu destino. Ela sabia que tinha que voltar pra casa, que estava tempo demais na Cidadezinha, como ela chamava. Era o lugar que ela e os amigos passavam as férias. Desde pequenos, todos pediam grana ou já tinham guardado para o mês na Cidadezinha, na casa do Haroldo. Todos estavam sempre lá. Alguns iam embora mais cedo, outros mais tarde. Dessa vez Bia tinha ficado mais tempo. Dois meses e meio. Estava sem dinheiro, culpada por ter de comer coisas pelas quais não pagava. Talvez eles nem dessem bola, talvez apenas alguns dessem bola. Ela caminhava na terra molhada, de pés descalços amortecidos, quase chegando na casa do Haroldo. Talvez mais cinco minutos. Talvez mais.
Todos as noites era servida uma sopa. De feijão, de abóbora, de beterraba, legumes, eles davam algum jeito. Bia trazia ervas do quintal do vizinho. Ela picava as ervas e fazia uma manteiga com as ervas. Eles comiam com pão. Fernando, Cíntia e Haroldo eram os únicos que ficavam. Bia já tinha saudade das outras pessoas. Pensava que só as veria daqui a um ano. Bia fez a manteiga e foi pro quarto, agora vazio, com duas camas extras. Em uma delas estava um roupão de ceda, era de Maria. Estava alí de propósito. Maria gostava muito de Bia.
-Tu não quer ir né Bia?
-Não. Na verdade eu não queria estar em nenhum lugar. Estar aqui ou em qualquer outra parte não me importa. pelos menos aqui vejo menos gente.
-Eu preciso ir.
-Eu sei.
-Eu não queria. Eu queria que tu fosse junto.
-Eu também. na verdade eu não sei.
Bia lembrava de Maria saindo do banho. De roupão. Magra, com uma queda especial por artistas plásticos. Já tinha namorado 3 deles. O último, um cara mais velho, com um tique horrível no nariz e uma particular insistência em assunto políticos. Bia tinha nojo dele. Teve nojo dos dias que ele passou na Cidadezinha. Mas ela não falou nada. Via Maria feliz. Uma felicidade perdida nela mesma. Orientada por um futuro concreto. Maria já tinha largado as pílulas, já não se interessava tanto por moda, não tinha noitadas para comentar. Nesse ano conversaram sobre coisas superficiais. Não se tocaram. Foi um furo triste no estômago.
O roupão de ceda estava ali na cama. A luz do quarto piscou e Bia soube que alguem tinha saído do banho. Era sua chance. Ela sentou na cama, buscou o telefone na mochila e ligou para casa. Ela tinha que voltar.